Fidelidade e Traição
Atento ao meu amor
“Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure”
De Soneto de Fidelidade, Vinicius de Moraes.
Para falar com alguma propriedade aqui está a definição de fidelidade do dicionário Aurélio que nos pode ser usada:
Fidelidade.[Do lat. Fidelitate.] S. f. 1. Qualidade de fiel;lealdade. 2. Constância, firmeza, nas afeições, nos sentimentos; perseverança.
Partindo daí, enxergo no romance de Alencar três grandes tipos de fidelidade a uma mesma personagem, Ceci. Loredano, Álvaro e Peri são fiéis à Cecília de maneiras diferentes. No primeiro, essa fidelidade se apresenta junto com um ciúme doentio e um sentimento de posse e conquista que o faz pensar e agir como se tivesse acometido de doença mental. Não mede as conseqüências, apesar de ter planos muito bem traçados para alcançar seu objetivo a todo custo. Cecília para este, é como um prêmio, e como o maior dos prêmios, lhe deve ser entregue no final junto com o atestado que prova sua exclusividade. Sua lealdade exerce papel de suma importância uma vez que vai servir-lhe para garantir que Ceci não será tocada por mais ninguém. Assim, escreve Alencar:
“Em Loredano, o aventureiro de baixa extração, esse sentimento era um desejo ardente, uma sede de gozo, uma febre que lhe queimava o sangue: o instinto brutal dessa natureza vigorosa era ainda aumentado pela impossibilidade moral que a sua condição criava, pela barreira que se elevava entre ele, pobre colono, e a filha de D. Antônio de Mariz, rico fidalgo de solar e brasão.”(1)
Álvaro demonstra toda sua fidelidade na sua infinita ânsia de trocar um olhar com Cecília, ou fazê-la aceitar um presente. O sentimento de fidelidade despertado aqui faz com que o cavalheiro seja quase um vassalo do sorriso da garota. Álvaro a ama, e esse amor o faz pensar ser recíproco, então espera, lealmente o dia em que Ceci finalmente aceitará seus presentes. O sentimento enche de poesia a mente do homem que segue fiel à sua dama.
“Em Álvaro, cavalheiro delicado e cortês, o sentimento era uma afeição nobre e pura, cheia de graciosa timidez que perfuma as primeiras flores do coração, e do entusiasmo cavalheiresco que tanta poesia dava aos amores daquele tempo de crença e lealdade.”(2)
E por último a fidelidade de Peri que se manifesta junto ao sentimento de adoração. O índio vê a menina como uma santa e para ele esse sagrado deve ser preservado e protegido a todos os instantes, mesmo que para isso ele tenha que sacrificar a própria vida. Sua dedicação e lealdade não esperam de Cecília qualquer coisa em retorno, só seu contentamento vale o esforço sobre humano que nosso herói tem. Qualquer pensamento expressado pela garota é imediatamente realizado por Peri, e nada pode ser muito para ele, nem onça, nem quedas altíssimas, nem inimigos a rodo.
“Em Peri o sentimento era um culto, espécie de idolatria fanática, na qual não entrava um só pensamento de egoísmo; amava Cecília não para sentir um prazer ou ter uma satisfação, mas para dedicar-se inteiramente a ela, para cumprir o menor dos seus desejos, para evitar que a moça tivesse um só pensamento que não fosse imediatamente uma realidade.”(3)
No capítulo intitulado Amor temos o resumo de como esse sentimento se caracteriza em cada uma das três personagens já mencionadas acima. Pensar que o amor não existe sem a fidelidade seria plausível tomando como princípio à constância do sentimento. Quem ama, ama sempre, por mais que alguns momentos esse sentimento se misture a outros, ele permanece lá. Assim temos aqui, nas palavras de José de Alencar, o resumo.
“Loredano desejava; Álvaro amava; Peri adorava. O aventureiro daria a vida para gozar; o cavalheiro arrostaria a morte para merecer um olhar; o selvagem se mataria, se preciso fosse só para fazer Cecília sorrir.”(4)