A Traição
“I am not who I am”
Fala da personagem Iago em Otelo, de William Shakespeare
Como anunciava a tempestade “seca, terrível e medonha”, algo de muito terrível estava para acontecer. A noite cai e com ela a chuva, os trovões e os relâmpagos, logo uma descarga elétrica que parte uma árvore e a derruba ferindo um aventureiro. O mesmo arruma forças para se confessar antes de falecer. Na sua confissão, o moribundo revela um segredo a Fr. Ângelo di Luca. Um mapa que levaria às minas de prata que guardavam tanto metal “que se poderia calçar as ruas de Lisboa”. O frade tomado pela ganância demonstra tanto contentamento que chega a quebrar uma cruz para apoderar-se do pergaminho. Podemos pensar essa como a primeira traição de Loredano, que até então se dedicava unicamente aos preceitos de Deus, e agora havia traído não só a sua fé, mas também a si mesmo. Assumindo pouco depois sua nova personalidade, Loredano chamava-se agora.
Esse audaz aventureiro bolara seu grande plano e tentava convencer dois outros homens a colocá-lo em prática. Como os dois se mostravam muito espertos e pouco confiantes, Loredano lhes confessou ter escrito um testamento em que revelava toda a sórdida trama e entregava os dois como seus ajudantes. Sem pestanejar, os aventureiros decidiram por executarem o plano. O testamento fora confiado a D. Antônio, uma vez que o italiano conhecia o caráter do nobre. E na verdade, traindo seus companheiros antes que fosse traído, indicou no testamento Bento Simões e Rui Soeiro como os mandantes.
“Somente nesse papel, em vez de ter revelado o seu plano, como o italiano dissera a Rui Soeiro, ele havia apenas indicado a traição dos dois aventureiros, declarando-se seduzido por eles; o frade mentia pois até na hora extrema em que o papel devia falar.”(7)
E assim o ex-frade conquista outros homens para levar seu plano adiante, só não contava com o arrependimento deles. Sentimento que o condena à morte. Seus companheiros decidem queimá-lo na fogueira, e quando esse pensa que sua punição terminaria aí, os aventureiros tomam-lhe seu precioso tesouro. Está consumado agora seu fim. Sua traição tão bem planejada não contava com a redenção daqueles que para ele eram fiéis ao dinheiro e nada mais. Talvez Alencar tentasse nos dizer que na nação que surgia ali não havia espaço para aventureiros sem escrúpulos.
Notas
(1) Alencar, José de. O Guarani. Cotia, São Paulo. Ateliê Editorial, pág.113.
(2) Idem, pág. 113.
(3) Idem, pág. 114.
(4) Idem, pág. 114.
(5) Idem, pág. 58.
(6) Idem, pág. 60.
(7) Idem, pág. 197
03 junho, 2008
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