03 junho, 2008

Ensaio - Final

A Traição

“I am not who I am”
Fala da personagem Iago em Otelo, de William Shakespeare


Como anunciava a tempestade “seca, terrível e medonha”, algo de muito terrível estava para acontecer. A noite cai e com ela a chuva, os trovões e os relâmpagos, logo uma descarga elétrica que parte uma árvore e a derruba ferindo um aventureiro. O mesmo arruma forças para se confessar antes de falecer. Na sua confissão, o moribundo revela um segredo a Fr. Ângelo di Luca. Um mapa que levaria às minas de prata que guardavam tanto metal “que se poderia calçar as ruas de Lisboa”. O frade tomado pela ganância demonstra tanto contentamento que chega a quebrar uma cruz para apoderar-se do pergaminho. Podemos pensar essa como a primeira traição de Loredano, que até então se dedicava unicamente aos preceitos de Deus, e agora havia traído não só a sua fé, mas também a si mesmo. Assumindo pouco depois sua nova personalidade, Loredano chamava-se agora.

Esse audaz aventureiro bolara seu grande plano e tentava convencer dois outros homens a colocá-lo em prática. Como os dois se mostravam muito espertos e pouco confiantes, Loredano lhes confessou ter escrito um testamento em que revelava toda a sórdida trama e entregava os dois como seus ajudantes. Sem pestanejar, os aventureiros decidiram por executarem o plano. O testamento fora confiado a D. Antônio, uma vez que o italiano conhecia o caráter do nobre. E na verdade, traindo seus companheiros antes que fosse traído, indicou no testamento Bento Simões e Rui Soeiro como os mandantes.

“Somente nesse papel, em vez de ter revelado o seu plano, como o italiano dissera a Rui Soeiro, ele havia apenas indicado a traição dos dois aventureiros, declarando-se seduzido por eles; o frade mentia pois até na hora extrema em que o papel devia falar.”(7)

E assim o ex-frade conquista outros homens para levar seu plano adiante, só não contava com o arrependimento deles. Sentimento que o condena à morte. Seus companheiros decidem queimá-lo na fogueira, e quando esse pensa que sua punição terminaria aí, os aventureiros tomam-lhe seu precioso tesouro. Está consumado agora seu fim. Sua traição tão bem planejada não contava com a redenção daqueles que para ele eram fiéis ao dinheiro e nada mais. Talvez Alencar tentasse nos dizer que na nação que surgia ali não havia espaço para aventureiros sem escrúpulos.


Notas


(1) Alencar, José de. O Guarani. Cotia, São Paulo. Ateliê Editorial, pág.113.
(2) Idem, pág. 113.
(3) Idem, pág. 114.
(4) Idem, pág. 114.
(5) Idem, pág. 58.
(6) Idem, pág. 60.
(7) Idem, pág. 197